Casa de praia do Arquiteto
Devo confessar que fiz esse projeto a contragosto, porque já antevia que o grande entusiasmo da família, como acontece frequentemente com quem constrói casa na praia, não duraria muito tempo. Depois de resistir durante meses às pressões, num determinado momento me vi subjugado pelas insistentes cobranças, e elaborei o projeto.
Então veio a penosa fase de construção de uma obra bastante detalhada e inovadora, totalmente fora dos padrões usuais, o que fez com que só fosse concluída com a quinta equipe de mão-de-obra (sabidamente a mão-de-obra litorânea costuma ser de baixa qualidade e eu não podia estar todos os dias no canteiro, o que tentei suprir com uma quantidade enorme de desenhos de detalhes), muitos quilômetros percorridos entre Curitiba e o litoral, muito incômodo, algumas adaptações, custos imprevistos e cronograma estourado.
Mas finalmente ficou pronta, e como eu previa, um ano e meio após, a casa só tinha sido usada pela família durante parcos dez dias. Foi quando decidi, sob protestos gerais, que a venda seria o caminho mais lógico e sensato. Elaborei um memorial descritivo que informasse aos interessados sobre as qualidades, materiais empregados, estratégias bio-ambientais, etc. que a casa possuía, entreguei a um corretor de imóveis e pedi a ele que fizesse apenas uma coisa: num dia bem quente de verão, levasse cada cliente à casa e, em lá chegando, nada dissesse. Apenas abrisse as grandes portas de correr de acesso, e o introduzisse no ambiente interno fresco e ventilado pela brisa do mar, contrastando com o grande calor do exterior.
Assim procedendo, e apesar de que a época era de forte recessão do mercado imobiliário, em poucos dias eu tinha três candidatos à compra da casa. Foi então que, por não ter grande experiência na comercialização de imóveis, que não é "minha praia", com perdão do trocadilho, descobri algo interessante: para um imóvel que possui qualidade ambiental superior à das construções "normais", o parâmetro de preço deixa de ser a área construída. E esta constatação ficou evidente pelo preço de venda que a casa alcançou: quase 3 vezes o custo de sua construção e um valor por m2 mais que o dobro do valor médio das demais casas que estavam à venda! Afinal, lembremos que tanto uma Ferrari quanto um fusca possuem 4 rodas, portas, pára-brisas, levam as pessoas de um lugar a outro, e no entanto seus valores respectivos de compra e venda são incomparáveis. Vamos detalhar um pouco estes diferenciais.
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